Direitos iguais

Eu nunca quis aprender a cozinhar. Cozinhar era coisa de mulher.

Explico, na minha cidade, tudo a minha volta parecia rodar no binômio perfeito homem-que-trabalha e mulher-que-cuida-das-crianças-e-da-casa. Meu pai inclusive falava sobre isso comigo, não no sentido de que “ia ser assim comigo também” mas mais no sentido “foi algo que eu etua mãe acordamos”.

Eu via a vida dos dois. Meus pais estão juntos até hoje, acho que por que se gostam (ou estão velhos demais e acostumados um com o outro). Cresci numa época que divórcio era algo feio e parecia ser contagioso. Filha grávida antes do tempo um drama familiar (ainda é), mas quando falei em aborto (apenas uma vez) só faltaram me mostrar a cruz.

Voltando aos meus pais, eles estão juntos até hoje. Mas não foi sempre um mar de rosas. Havia discussões por dinheiro – discussões atravessadas que pareciam que um não queria dizer a realidade para o outro que não queria entender (entenderam?). Minha mãe era professora estadual e o que ela ganhava era tão pouco que quando me formei, a soma de meus estágios dava mais que o salário dela. Todos os anos ela nos perguntava se nós queríamos que ela desse aula de manhã ou de tarde para decidir como teríamos “nosso tempo”. Meu pai (apesar de até ajudar um pouco em casa em casa), era o típico que saia largando as roupas no caminho até o banheiro (e a mãe juntando) e sentava na sala dizendo “Estou pronto!”, enquanto minha mãe corria para se arrumar e nos arrumar.

Por essas pequeninas coisa, que iam se juntando, decidi nunca casar. Decidi também que não seria mulher.
Fiz poupança para aborto clandestino (caso desse problema) e sonhava trabalhar e correr o mundo.

Ai me neguei a aprender a cozinhar, nunca brinquei de casinha. Evitava namorar. Até apresentei uns caras em casa para meus pais ficarem tranquilos, mas nunca quis um cara para toda vida. Um dia vi uma prima servir o namorado a mesa. Dei uma exclamação, saí de perto e jurei pra mim mesma: Nunca! Nunca! Nunca!

Trocar de nome? Só se eu trocar de sexo. Nunca por outra pessoa. Uma vez falei com minha avó que ficou escandalizada. Nunca entraria numa igreja de branco “Só se for de shorts vermelhos!”, não adiantava as ofertas de enxoval.

Nunca contei que, apesar de tudo, adoraria ter filhos…mas marido era algo opcional.

Comprei minhas coisas montei minha casa. Meu pai deu ajuda na entrada do meu primeiro apartamento.

Dona no meu nariz e especialista em cozinha ogra.

Foi aí que apareceu o Tiago.

Milan Kundera, num conto, fala que os relacionamentos se estruturam nos 20 primeiros dias. Certo ou não, naquele período rachamos tudo. Quando ele começou a morar lá em casa, fiz questão que ele dividisse todas as tarefas – limpar a casa e arrumar. Eu ensinei ele a limpar e ele me ensinou a cozinhar e, aos poucos, fui tirando o ranço de que cozinha era coisa de mulher. Faz parte da sobrevivência de qualquer ser humano.

Dividimos tudo, conta conjunta, juntamos bibliotecas (momento perigoso).

Filhas vindo, ele dava banho enquanto eu tomava chá. Eu cozinhava, ele lavava.

Quando tive a oportunidade de ir a China, com a Alice com apenas 1 ano, ele tomou a frente e me disse que eu devia ir. Quando passei no doutorado ele ficou três meses com as rédeas da casa. Agora que estou sem emprego, o que conseguimos montar juntos nos mantém. Não é perfeito, temos brigas feias. Mas sempre é junto, sempre em equivalências de posições. Um não abaixa a cabeça para o outro. Um não acha que o outro deve fazer isso ou aquilo baseado no sexo.

Não furamos as orelhas das nossas filhas.

E não casamos.

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Reformatando o blog – 2001

Comecei o Blogdpi em fevereiro de 2001 por sugestão de outro “blogueiro” (essa palavra não existia) Zamorim (o link ainda funciona!), depois de ler a Garotadpi (no pílula?).

A Garotadpi fez um relativo sucesso na época e graças a ela conheci muita gente legal da web que recém estava sendo conhecida. Também estava fazendo mestrado, tinha me mudado há um ano para a rua 24 de maio (as escadarias) e a grana estava muito curta. Estava sem namorado e batalhando para voltar ao peso normal e me vinha as voltas com as contas para ir à Joinville com a Silvana e o Heli.

No início eu me desculpava demais por não escrever, chega a ser chato. É engraçado também ver referencias a coisas legais que fiz mas sem contar toda a história: ter ido a Joinville, os quadrinhos e – as coisas não tão legais – a prova de mestrado e a bomba que levei e como aos poucos eu vou entrando numa depressão que só iria sair em 2002, 2003, quando volto a nadar e corto os cabelos curtos novamente.

Outra coisa que não conto é o assédio que recebia de admiradores da Garotadpi, via email e icq. O que me fez fazer o gif abaixo:

um coração pixelado onde lê-se: Eu NAO acredito em amores virtuais - por favor não insista.

O mundo web era uma gota do oceano que seria.

Há um iato entre julho e dezembro. Nesse período eu estava lá embaixo no trabalho. Ainda não sabia, mas estava sofrendo assédio profissional do líder de equipe. Tinha tido duas promoções vetadas, tinha pedido transferência e tinha sido negado (na verdade solicitaram a troca por outro profissional da área para onde eu ia, mas ninguém queria trabalhar com o nosso líder de equipe). Por fim, com a desculpa que eu tinha passado na Procempa, me tiraram todos os trabalhos. Eu passava os dias estudando HTML, desenhando cartões para o ViaRS e dando voltas pelo prédio. Numa dessas voltas eu encontrei a Claudinha, que era RP na diretoria. Ela parecia triste com uma pilha de desenhos à sua volta. O quero-quero do Programa de Software Livre foi o último trabalho que eu fiz na Procergs.

Estranho por que, logo que passei na Procempa, não imaginava ir. Estava feliz na Procergs. Basicamente fui forçada a ir por conta de meses de jornadas de trabalhos ruins sem esperança de melhora.

E o ano acabou com novos posts em dezembro, já trabalhando na Procempa, ganhando relativamente bem.

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