42 – Douglas Adams

Biblioteca Rivadavia sala infantil

Quando eu tinha cinco anos decidi que não ia aprender a ler.

Isso porque meu pai lia para mim á noite, as vezes o único encontro, os poucos minutos que eu tinha com ele. Ele lia Asterix, fazia as vozes. Mas nunca lia a história inteira.

Com o tempo eu me convenci a ler. Lembro que ler, ler foi aos oito anos de idade. Aos seis eu lutava com a ideia de memorizar as letras. Nunca entendi como achavam que eu podia pular dois anos da minha educação. Eu sofria para ler.

Ainda bem que a minha mão não topou que eu pulasse de ano.
Minha escrita também era lenta e tortuosa. Com o tempo fui melhorando.

A escola tinha um dia de ida a biblioteca a cada duas semanas, eu podia pegar um livro emprestado e levar para casa.

A biblioteca era uma delícia, livros ao alcance da mão, tapetes e almofadas fofos. Eu ficava jogada no chão, simplesmente lendo. Eu tinha uma espécie de depressão quando tinha 7, 8 anos. Era uma sensação de que tudo estava acabado, que eu ia morrer, então colocava marcos na minha semana. Se eu chegava neles teria sobrevivido mais um pouco.

Ir a biblioteca era algo que eu esperava ansiosamente, era onde eu me sentia em paz.

O primeiro livro que li foi o Planeta Lilás do Ziraldo. Era do Circulo do Livro, capa dura, ganhei da minha mãe. tenho o livro até hoje.

Ler me ajudou a enfrentar meus problemas, a achar as respostas que eu procurava, a aprender sobre o mundo, a passar em concurso, a saber quando um médico estava errado no diagnóstico, a acertar a posologia de um remédio, a usar uma lei ao meu favor ou em favor de um projeto que eu defendia, a conseguir o que eu queria e precisava. Ler rápido me deu vantagens sobre outras pessoas.

Praticamente todo conhecimento humano está escrito ou sendo escrito.

Aí eu conheci o Tiago. Que também lia. Lia mais rápido do que eu.
Quando achamos que íamos ficar o resto da vida juntos – acho que no quarto, quinto mês de namoro – juntamos as bibliotecas. Trocamos os repetidos por outros livros.
Mas fomos precavidos. Cada um ficou com sua cópia de Nausicaa.

Ai descobri que Tiago conhecia sobre alguns livros que eu sempre tive curiosidade, mas ninguém no meu entorno sabia sobre eles. Senhor dos Anéis (que minha mãe havia dito que tinha algo a ver com jogos olímpicos), e o Mochileiro das Galáxias.

Comecei a ler. O Senhor dos Anéis eu não terminei até hoje, preguiça depois de terminar o segundo livro. O Hobbit é uma versão curta do Senhor dos Anéis.

Já Douglas Adams virou meu amuleto pessoal. Depois que li o texto que Richard Dawkins escreveu sobre Douglas Adams, quando este morreu, resolvi ir atrás um pouco mais da vida do escritor.

Ou, melhor, da forma que ele escrevia. Eu já vinha lendo biografias ha algum tempo e a de Douglas Adams chegou num período difícil depois de três meses longe das minhas filhas. Em 2016 lutei para ler “Last Chance to See”, no original. O que rendeu boas risadas no banheiro.

Eu sinto uma certa simpatia em relação a Douglas Adams: também tenho dificuldade com prazos e escrever é uma luta para mim.

Há pouco descobri que o Luis Fernando Veríssimo compartilha a mesma característica. Ele não gosta de escrever, gosta de ter escrito.

Tiago, que escreve melhor que eu, disse que eu tinha que escrever mais.
Ontem fiquei três horas no sótão da casa, escrevendo.

Quando vi, eram quase nove da noite.
E ninguém tinha dado falta de mim.

Publicado em Apenas um dia... | Comentários desativados em 42 – Douglas Adams

42 – Música.

Nasci quando Gita tocava no rádio. Depois que a minha mãe contou eu vivia procurando significados, conexões da minha vida com a música.

Também ouvia “Metamorfose ambulante” e “Eu nasci há 10 mil anos atrás”, essa última muitas vezes confundia com Gita.

Não vou dar um peso exagerado a essas músicas quando digo que elas formaram meu modo de filosofar sobre o mundo. Elas e outras.

Mas Raul fez essa música FODA no ano que eu nasci.

Não sei cantar, mas a música faz parte da minha vida. Meus pais e familiares cantando, com violão até altas horas da madrugada. Boa parte MPB. Meu pai fazia parte de uma banda quando jovem e faz agora, com mais de sessenta.

Minha irmã e minha mãe dizem que cantam (elas cantam, mas as vezes acho meio forçado). Eu não canto. Não acho que cante. Já me dei bem em ensaio de coral, mas nunca fui a fundo.

Mas gosto de música. Gosto de trabalhar ouvindo música. Gosto de montar trilhas, gostava de gravar fitas. Adorava experimentar coisas novas nas locadores de cds.

Eu tinha toda discografia do Nirvana, do REM, do Queen em fitas. Fazia capas, escrevia os títulos das musicas no verso, uma trabalheira que eu amava.

Logo que a MTV veio para o Brasil pensei em trabalhar com videoclipes, fazia storyboards das minhas ideias (algumas melhores que os clipes que mais tarde vi – ão, não mudei de ideia com o tempo).

Demorei a gostar de rock nacional. Gostava da Rita Lee (e era o mais perto de modelo feminino não convencional que eu tinha à mão por muito tempo).

As vezes é difícil curtir algo que vc entende a letra. Musica estrangeira dá para fingir que o lance é mais profundo.

Com o tempo curti Paralamas (Severino é meu álbum predileto deles), Mutantes, Pato Fu…

Mutantes, um namorado sempre me dava um álbum deles no meu aniversário – Natal. Um dia imaginei que se comprasse os títulos que me faltavam o namoro acabaria.

Comprei.

O cara me pôs um par de chifres e me passou HPV.

Mas não deixei de gostar de Mutantes por isso. Em compensação troquei todos os meus CDs do Pink Floyd por alguns da Madonna (2 por 1) e completei – na época – minha discografia do Pato Fu.

Fui a poucos shows de rock. Não tenho esse culto a um artista e dificilmente ficaria semanas numa barraca esperando na fila. Mas adoro Pato Fu, não perco um show deles. Mesmo abaixo de chuva.

Tenho escutado “Life on Mars” do David Bowie antes de começar a trabalhar na tese.

Mas, agora, eu entendo as letra.
Mesmo confundindo com “Space Oddity”.

Publicado em Apenas um dia... | Comentários desativados em 42 – Música.