Rotina

O celular toca as 5:30 da manha. Por que? Porque eu iria a Porto Alegre essa semana. Primeiro ônibus.

Mas essa semana não. Essa semana preciso terminar em sossego. Nem pensar um laboratório cheio de gente falando abobrinhas. Preciso trabalhar.

De verdade.

Mas a manhã é sempre da casa. Acordar as crianças, pra mim, é a tarefa mais ingrata. Aproveito e junto as roupas pra lavar. Nossa máquina estragou, tenho que ir a pousada. Antes de descer, junto o lixo reciclável e meu coletor menstrual (para ferver), no mesmo cesto da roupa.

Na pousada é tomar café da manhã correndo e sair atrasada para as gurias irem no judô. Deu tempo de recolher as roupas do dia anterior enquanto Alice ia ao banheiro.

Muito atrasada deixo as gurias no judô, lembrando que da próxima vez elas que se virem que odeio chegar atrasada em compromissos. Tem que pagar a mudança de faixa e o professor me entrega um aviso da apresentação de hoje.

Passo no banco, deixo o pisca alerta do carro ligado, porque em Gramado,, não há onde estacionar. Saco o valor das faixas, da diarista (que, talvez, venha essa semana, depende dela) e um pouco para ir a Poa (será que vou essa semana?).

Volto ao Perinão,Pago as faixas, pego as gurias. Em casa solto os cachorros, as turistas hospedadas no hotel do velho sovina puxam conversa comigo sobre a fauna que habita minha casa.

Converso um pouco mas é hora de limpar a casa. O chão do térreo precisa ser limpo, pano no chão, mas perco tempo limpando as teias de aranha na fachada. Hora de ir pra cozinha.

O porco tinha sido deixado fora do gelo de véspera, é só jogar no forno. Tempero com o que acho que vai cair bem: curry, sal verde, shoyu e geléia de amora. Esfrego tudo no porco e toco no forno pré aquecido.

Ainda tem umas batatas doces. Mas Alice termina o reforço que fiz para ela. Hora de corrigir.

Sento com ela, a faço ler em voz alta cada uma das tarefas. Corrijo e faço uma lista das palavras erradas na redação. Libero ela e faço duas páginas de tarefas para a manhã seguinte. Sofia é 9.8 ou 10 nas aulas, Alice está entre 7.0 e 7.5. É a média, mas se você estuda em escola pública tem que estar acima disso.

Corto em tiras finas as batatas doces. Vamos tentar, de novo, fazer chips. Confundo o vidro de azeite com o de shoyu e tenho que limpar a bagunça que fiz. Tiago chega e começa a por a mesa. Mas se distrai e pega o celular. Esquece de aquecer o arroz. Chamamos as gurias umas três vezes antes delas resolverem descer. Aqueço o que está pronto: arroz, feijão e brócolis. Monto a salada.

Conversamos durante o almoço, mas temos que cuidar para Sofia se lembrar de comer ao invés de apenas tagarelar. Abro um vinho, mais para aliviar a tensão de um começo de dia tumultuado.

O porco ficou bom!

Almoço terminado, eu e Tiago continuamos as experiências com os chips de batatas doces. O melhor ainda é o microondas. Tiago tira a mesa, guarda a louça limpa e carrega a máquina de lavar louça com uma nova carga.

Limpo a pia, e dou um jeito na cozinha enquanto Tiago chama as gurias, pela terceira vez para sairem. Estão atrasados. Quando saio da cozinha, mal vejo Tiago dobrando a esquina de bicicleta.

Encho o calice novamente de vinho. sento na frente da TV e busco algo pra assistir. Faço carinho na Kitty, a cachorra mais carente da face da terra.

Tiago volta e traz a roupa que foi lavada. Estendo a roupa no varal. Encho novamente o calice de vinho. Fervo água, preparo o chá e subo.

Hora de trabalhar.

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A casa (parte 2)

Continuando sobre a casa (do terror).

Eu me lembro da casa que morei na Riachuelo, lá em Santa Maria. Era cheia de lesmas, aranhas, baratas e ratos. Meu pai alugara porque…bom tinha um pátio.

Me lembro que, nos primeiros anos, até era bom. Tinha um balanço e o pátio ficava mais ou menos limpo.

Não vou dizer que não fui feliz naquela casa. Mas os bichos e a facilidade que ela tinha de acumular lixo e coisas nojentas me assustava. Eu não dormia de noite por conta dos ratos correndo no nosso telhado. Eu tinha nojo de sair no pátio durante o inverno e chuvas por conta das lesmas. E ainda tinha o veneno, as ratoeiras em todos os lugares. Eu morria de medo de tudo aquilo.

Além disso a Riachuelo é uma rua com uma das descidas mais perigosas e movimentadas de Santa Maria, eu não conhecia as crianças da vizinhança porque era impraticável brincar na rua ou andar de bicicleta.

Eu sonhava viver num bairro mais afastado e ter amigos. Eu nunca tive muitos amigos. Morar numa casa mais limpa e sem ratos ou baratas.

A casa que estamos me lembra, muito, a casa que morei na Riachuelo. Por isso não quero ficar muito tempo aqui. Não tem baratas (tem moscas e uma eventual barata do campo), Não tem ratos, mas temos um gambá que mija em todo o sótão.

As gurias pararam de usar o banheiro delas por conta do gambá. O mijo acaba escorrendo por uma das paredes. Estamos tentando retirar o bicho, mas ele se enfia entre o forro e o telhado. Onde ninguém alcança.

Assim, negocio, penso que é apenas o tempo de terminar o doutorado, aí eu penso em algo. Se o proprietário do imóvel do lado da pousada morrer, eu quero comprar a propriedade. Mas aqui, nesse bairro, é tudo 2 milhões, quatro…como vamos fazer?

E a proprietária ainda teve a pachorra de aumentar o aluguel. Assim, da cabeça dela, sem levar em conta nenhum índice. E a casa está afundando no centro, está cheia de problema, mas ela não quer gastar.

#tahcerto

As vezes dá raiva. Ela se aproveita porque diz ser “amiga” da minha sogra. Mas amigos não aumentam em quase 50% o aluguel. Ela queria passar o aluguel de R$2.000,00 pra R$2.800,00. Que raio de amiga é essa, que alga a casa, quase dobra o aluguel e não dá as condições mínimas de moradia? Ela morre de medo da gente e, sei lá, o que combinou com minha sogra. Eu disse que pagava mais uns 200, que é um pouco acima do IGPM.

Porque a casa estava um lixo antes de chegarmos. Limpamos, consertamos e trocamos muitas coisas. O Tiago refez praticamente TODA a fiação elétrica da casa.

Agora, desde dessa, tentamos manter a casa limpa, principalmente as áreas que as crianças andam. Mas, na boa, quanto mais cedo sairmos daqui, melhor.

A casa tem muitos cantinhos e texturas criadas apenas porque, possivelmente, a proprietária nunca pegou num pano para tirar o pó. São reentrâncias e reentrâncias, que acumulam pó, sujeira e bichinhos.

Mas as vezes tudo que a pessoa quer na casa é a “aparência”. É uma casa grande, uma mansão. Mas não é prática. Ela pe mal dividida e, por estar em Gramado, é uma tragédia em termos de aquecimento e manutenção de temperatura. As vezes parece que tudo foi feito para “parecer” e não “para ser”

Exemplo: Há coisas cenográficas na casa. Coisa de ver e não de usar, como a cozinha.

O que minha sogra me disse é que eles não cozinhavam. isso fica bem visível pela forma que a cozinha foi feita. Quando chegamos, tinha uma coifa. Velha, cheia de gordura e ferrugem, cozinhei o primeiro ano com ela lá, morrendo de medo e nojo que aquele grude caísse na comida.

Um dia enchi o saco e pedi para Tiago tirar a coifa. Ela estava apenas presa ao teto, sem nenhum cano de conexão ou exaustor para fora. Na coifa, o buraco por onde entraria a longarina estava vedado como vindo de fábrica.

Não há espaço para fogão. Meu amado fogão ficou na pousada, substituindo o velho (para felicidade das funcionárias da cozinha). Tive que comprar um fogão elétrico (coisa que odeio). Há um cooktop, cujas bocas estavam enferrujadas. Troquei quase tudo, grades, tampos. O gás fica bem longe e, em tempos de governo golpista, o gás é um problema.

Tanto que voltamos a usar chuveiro elétrico. Mesmo a luz sendo uma das mais caras do sul (RGE), ainda vale mais a pena.

A cozinha é projetada, mas o material é tão vagabundo que apenas deixar uma gota d´água em cima do móvel, o compensado já faz bolha. Tivemos que tirar o filtro e coloca na bancada de drinks.

Sim, temos uma bancada de pedra tão alta que não serve pra nada. O espaço não foi feito para cozinhar para uma familia de 4 pessoas. A pia é minúscula e não há lugar para preparar os alimentos. O fogão tem duas bocas boas, o resto uso para aquecer. Tenho que ter disciplina e senso de organização se vou fazer feijão, carne e arroz num dia. Tenho que começar duas horas antes, no mínimo.

Coloquei o filtro e uso de apoio para passar os pratos. Tinha dois bancos de bar, que minha sogra levou para a proprietária, porque eu tinha deixado os dois no porão.

E ela ainda reclama. De mim.

Um dia sairemos daqui. E que não me peçam pra dar boas referencias.

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