Minha mãe não voltou a trabalhar até a minha irmã fazer 3 anos. Me lembro dela perguntar sempre se a gente queria que ela trabalhasse de manhã ou de tarde (ela era professora). Não me lembro o que eu respondia, como também não me lembro se isso realmente importava para mim. Boa parte das manhãs eram passadas com a empregada. Mas depois da Dóia, eu devia ter uns três anos, não tive vínculos afetivos com nenhuma delas.
Com o tempo as empregadas se tornaram diaristas. Passaram a não mais morar com a gente e o quarto de empregada virou a sala de jantar. Meus pais sempre dividiram algumas tarefas da casa com as filhas, até na praia, onde eu aprendia a lavar a louça e quarar a roupa branca.
Em casa eu sempre arrumei a cama, arrumava a mesa antes e depois da janta. A Arrumação do quarto sempre foi de nossa responsabilidade e se a bagunça ficava muito grande vinha as ameaças de que “o que tiver no chão vai para as criancinhas do orfanato”.
Minha irmã aprendeu a cozinhar. Eu nunca curti cozinha e achava ‘coisa de mulherzinha’ – sim eu nunca fui uma mulherzinha. Eu tinha ojeriza de brincar de casinha e a qualquer coisa rosa. Eu gostava de pintar, desenhar, organizar e consertar coisas. Não queria casar e meu sonho era correr o mundo numa carroça junto com a Quite – minha cadela com nome de gato.
E essa história foi até os oito, nove anos. Depois eu resolvi que ia trabalhar com o George Lucas e o Steven Spilberg produzindo filmes. Ou ser fotógrafa da National Geographic.
(Mais tarde eu desisti de trabalhar com o George Lucas e com o Steven Spilberg. Os dois tinham problemas pessoais demais que passavam para os filmes. Não tem paixão, e tudo muito diluído e corretinho e parece que quanto mais velhos eles ficam, mais ojeriza dessa coisa familia – pai, mãe, filhos que crescem, gente que se apaixona e se reproduz. Os filmes antigos eram melhores. E o Han Solo atirava primeiro. Sem desculpas).
O tempo passou, eu tive fase punk-light com camisetas customizadas (na época era rasgada e cortada mesmo), com calças tão velhas que um dia uma rasgou de alto a baixo enquanto subia no ônibus. Nem dei bola, amarrei o moleton, preto, por cima e fui para aula.
Depois eu descobri a Internet, curti trabalhar na área. Nunca me desviei muito do desenho. Também virei uma pessoa aparentemente normal até a hora que eu abro a boca para falar.
Mas ainda não me sinto bem num terninho com calça social.
Mas deve ser estranho para muitos que apesar de toda a minha porralouquice que me acompanhou desde a mais tenra infancia, eu sempre tenha pensado em ter filhos, carregá-los de mochila por aí e ter um cara ao meu lado.
Não um cara qualquer. O cara.
E eu sabia que era uma missão quase impossível. Cheguei até a pensar em produção independente, mas nesse ponto, acho legal ter um pai do lado. Adotar também seria legal. talvez mais tarde, depois dos 40, uma criança, ou duas.
Eu estava mais ou menos nesse ponto que o Tiago apareceu. Daí eu descobri que a missão não era tão impossível assim. Pelo menos, essa etapa está completa
Na verdade, na verdade eu ia escrever sobre outra coisa, mas eu estou assim mesmo.