Sobre livros e gostar de ler

Cena 1:
Ônibus universitário cheio uma mãe grita com o filho.
- A professora disse que você tem que ler, Lê (mostrando um jornal)! Lê isso aqui!

A criança balbucia. A mãe impaciente dá um tapa na cabeça no guri. Fim de espetáculo.

Eu quase me intrometi. Mas ficquei com medo de levar uma coça da mãe raivosa. Afinal, ela queria mesmo que o filho lêsse? pelo jeito nem ela era acostumada a ler. Ninguém com o hábito de leitura força outra pessoa a ler, principalmente algo inadequado como um jornal. Minha vontade era descer no próximo ponto e comprar uma pilha de revistinhas para o guri. E ter um papo franco e amigável com a mãe sobre gostar de ler.

*****
Cena 2
Um colega deixa uma pilha de livros para doar. Nada extraordinário: um manual de acampamento, um romance infanto juvenil obscuro, um livro de auto-ajuda com uma capa legal.

Ninguém da sala se interessa.

Ofereço os livros para a servente que leva todos. O argumento:
- Volta e meia meus filhos tem que ler algo e apresentar trabalho.

*****
A conclusão que chego, não baseado em apenas esses dois casos, é que brasileiro lê por obrigação. Vê a leitura como uma tarefa (ingrata) a ser cumprida.

Penso de quem é a culpa. Não existe resposta fácil. Pouco acesso a bibliotecas, bibliotecas pouco amigáveis, pouco estimulo a leitura nas séries iniciais, pais que não lêem (a falta de exemplo), a marginalização de leituras como os quadrinhos, etc, etc, etc…

Meus pais não são ratos de livro como eu. Mas eu cresci num ambiente onde livros faziam parte. Me lembro dos meus pais lendo nas férias, no banheiro. Sempre havia livros nas mesas de cabeceiras. Meu pai lia Asterix para eu e minha irmã dormir. Ela não é uma rata de livros mas lê bem mais que a média nacional (1.8 livros por ano).

Na escola, aos sete anos, tinha um dia especial para mim. Semana sim, semana não a turma era levada para a biblioteca infantil. Lá num tapete enorme e várias almofadas podíamos escolher qualquer livro da estante e ler. A professora lia também e podia pegar livros emprestados, o que eu fazia com frequencia.

Era um dia da semana muito aguardado. Me espreguiçar numa almofada naquele tapete azul felpudo.

Amante dos livros, acabei ensinando, sem querer, outras amigas a gostar de ler. Eu indicava, emprestava os livros que eu tinha gostado.

Talvez o caminho seja esse. Passar adiante o seu gosto pela leitura, indicar livros e ver no que dá. Hoje escolhi alguns livros. Vou levá-los amanhã para a Geralda. Quem sabe eu consiga dar um gosto para transformar um trabalho ingrato numa tarefa prazerosa?

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