Nas últimas semanas estive vasculhando os arquivos online da Veja no ano de 82 à procura de anuncios feitos pelo Ziraldo. Foi uam viagem no tempo. Na época eu tinha 7anos, recém tinha aprendido a ler, então muito do que ficou foram memórias visuais daquelas revistas que eu folheava na casa do meu avô (e no consultório do dentista).
Era um mundo bem diferente do que é hoje. Ainda viviamos sob o regime militar. Existia censura e reserva de mercado. Ou seja, nada de música com palavrão e vinho bom, só se você fosse rico. O governo anunciava o proalcool como um programa vitorioso e o Maluf aparecia nas capas das revistas sem estar ligado a nenhum escandalo. O computador recém chegava – as empresas (nem se cogitava ter um computador em casa). O videocassete tinha aportado nos lares em 81 e era a nova coqueluche – assim como as telas planas são hoje. O controle remoto tinha fio. O efeito estufa era apenas uma hipótese cientifica tratada em duas páginas na seção de ciências. Coca-cola litro vinha em embalagem de vidro, assim como o Nescafé e a Maionese. As propagandas mostravam toda a feiura dos nossos carros (chamados mais tarde de carroças pelo Fernando Color quando presidente) talvez porisso exaltavam suas caracteristicas utilitárias, não o design. Tão ruins quanto os carros eram nossos vinhos, beneficiados também pela reserva de mercado. Os cigarros apareciam como grandes anunciantes, mostrando pessoas saudáveis de sucesso, ou praticando esportes radicais. A quarta capa era sempre de uma marca de cigarro. E eram tantas que era um dos ítens do jogo “Stop” que jogávamos na casa da vó com folhas de caderno e canetas velhas.
As musas dos garotos “liam” Playboy eram garotas gordinhas retocadas apenas com maquiagem e iluminação. Ainda se vendia enciclopédia por cupons. Era ano da Copa Mundial de futebol e me lembro o dia que o Brasil perdeu para a Itália. Eu chorava junto com os adultos sem saber porquê. A emoção foi tanta na casa que eu devo ter decidido naquele momento nunca mais gostar de futebol.

