Chato! Feio! Bobo!

Mesmo depois de nos tornarmos adultos, a forma mais fácil de ofender alguém quando estamos com raiva é apontar o que consideramos os seus defeitos.

- “A Dilma sapatão tá tirando o dinheiro dos pobres!” – bradava o mendigo que ficava em frente ao bloco C da esplanada. O bordão “Dilma sapatão” rendia boas esmolas pelo que pude auferir no ir e vir diário.

Às vezes pensava em confrontá-lo – Acha que sapatão é palavrão? Que é ofensivo? – Claro que é, por que as pessoas concordam. Mulher poderosa, inteligente só pode ser sapata, e feia. Se for bonita é bi – tipo a Angelina Jolie. Então eu desistia, fazia cara feia, nunca dei um tostão. Mas vi vários darem por achar o cara “engraçado”.

Está com raiva da Fernanda? Ela tem cabelo curto, não se maquia, só pode ser sapata. Sua chefe te aborrece no trabalho? É mal-comida! Vai dar! Alguém tinha que pegar ela de jeito! O seu chefe não para de ter encher o saco? Puta-viado enrustido, tinha que dar o rabo para ficar feliz.

Nessas horas esquecemos as regras de civilidade e mostramos a face de algo que tentamos esconder sobre camadas e camadas de bom-comportamento. O que ouvimos das nossas avós, tios, tias, vizinhos, colegas e, sim, pais.

O preto de alma branca, a pretinha limpinha, ela é de confiança pois é evangélica. Fulano não pode ser machista porque é católico, todo homossexual é pedófilo, fulana não pode ser feliz porque é separada, fulano só pode ser gay porque nunca casou, não te indispõe com o cara porque ele é macumbeiro e faz trabalho contra ti, são só alguns exemplos de algumas ideias pré-concebidas, que rotulam e incluem as pessoas em grupos apenas pelo seu credo, cor ou orientação sexual. Já falamos ou já ouvimos de alguém querido alguma dessas frases pelo menos uma vez na vida.

Aprendi que o preconceito é algo que está entranhado na nossa cultura. Lá pelos meus 16 anos decidi que cor, orientação sexual e crença não definiriam, para mim, o caráter de uma pessoa. Já vi gente ruim de todas as cores, crenças e orientações, assim como conheci muita gente legal que não tinha afinidades em certos campos, mas que eram pessoas boas, legais e integras (algumas meio malucas, mas boas pessoas).

Mas isso não me impediu de xingar de “veado!” um desafeto.

Acredito que uma amiga minha não se considere racista, mas ela apelidou o macaquinho acrobata de brinquedo do filho de “Daiane” e, quando cortada por um motorista barbeiro, não pestanejou em fazer para ele o sinal equivalente à expressão “só podia ser preto”.

Ao indagar para ela se não tinha – pelo menos – receio de tomar um processo, ser presa e perder o cargo (ela é concursada), ela apenas riu. Era uma molecagem apenas e ela se considerava acima disso.

Ela podia ter mandado o cara a PQP, mostrado o dedo, xingado a mãe, chamado de barbeiro. Mas preferiu tocar no nervo fino do preconceito. Voltei para casa ruminando, afinal tivemos uma criação semelhante, mesma cidade. Porque eu via como racismo algo que ela via como algo “menor”?

O preconceito havia aparecido em duas situações, num gracejo e num acesso de raiva. Olhando os jornais, vendo a TV você percebe que o racismo é utilizado para fazer graça e que crimes são cometidos a partir de preconceitos. É uma análise rasa, mas não sou antropologa. O que eu quero entender é como o racismo ocorre em nossa sociedade, como ele passa despercebido e como eu faço para evitar que eu o passe para minhas filhas (percebendo que eu tive uma educação relativamente racista).

Lembrando de um TED Talks que vi de Susan Blackmore “Memes e Temes” onde ela defende ideias que replicam-se de cérebro para cérebro como um vírus. Ideias boas e ruins.

Racismo é uma ideia ruim. mas se persistiu deve ser porque deve ter sido útil em algum período da história humana, para defender sua tribo, sua linhagem, talvez. Durante o período da escravidão servia como desculpa, afinal negros não são humanos, então podemos trocar esse gibi por duas sacas de açúcar.

Hoje ele permanece como um resquício desse período. O pai tem medo que a filha se envolva com aquele músico de cabelo black power. mais medo ainda de que o filho seja viado, se descobrir que o filho se traveste, daria um tiro. Prefere um filho morto a um filho gay.

Como acabar com o preconceito? Lembrando do vídeo, em que compara a informação a um vírus, acho que o primeiro passo é se ter a consciência do problema.

Como um membro do AA – Eu sou Fernanda Lobato e sou racista. – no caso seria um vício e não doença – e estou a tantos dias sem xingar ninguém de viado e nem fazer piadas sem graça sobre nordestinos.

Aplausos gerais. Outro se levanta e se apresenta…

Feito isso, o racismo, o preconceito sumiriam? Duvido, pois nem todos admitem que estão doentes.

Resta saber se existe uma vacina para nossos filhos.

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