Archive for the ‘Biografia autorizada’ Category

Uma coisa que eu sinto falta…

Sunday, April 29th, 2007

Uma coisa que eu sempre senti falta foi de um grupo de amigas. Dessas de se sentar junto numa tarde e jogar conversa fora. Não que eu nunca tenha participado de um grupo assim, mas eles não criaram raízes, o pessoal se dispersou, etc. No colégio eu andava com uma turma mas tinha pouca identificação com elas: não me interessava por garotos, roupas de marca, fofocas. Eu já era ecologista, adorava animais, lia muito e me interessava por música, não Kiss (a escolha dos garotos) ou menudo (das garotas). O fato de eu realmente não estar nem aí para o fato do Tom Cruise ser liiindo, ou achar o guri que sentava no fundão um gato, realmente me prejudicava nas relações. Faltava assunto. Eu bem que tentava acompanhar a onda, me adequar…mas era sem coração.

Por incrível que pareça foram os guris os salvadores do meu total ostracismo. Durante anos meu circulo de amigos se restringia ao circulo masculino. Discutíamos música, quadrinhos livros, faziamos projetos, ia a baladas. Eu podia falar o que quisesse sem censura. Eu sabia que era desejada por alguns, cuidada como uma irmãzinha por uns poucos e uma amiga esquisita na concepção de outros. Lembro de cada um desses caras com muito carinho, mas nunca pude pintar as unhas com eles.

Durante muito tempo eu cheguei a pensar que nunca teria um grupo de amigas, que não existiam mulheres que pensassem, falassem sobre outro assunto que não fosse aquele mundo cor-de-rosa. E isso durou até o desenho industrial. Lá foi estranho, pois além de conhecer mulheres como eu (e confirmar que somos uma minoria), conheci as gurias que estavam no meio termo – gostavam de garotos, e roupas, de pintar as unhas – mas eram fortes em suas convicções e falavam o que lhes vinha à cabeça, sem medo de retaliações.

Andei com aquela turma um bom tempo, aprendi a conviver com as muitas diferenças existentes entre nós. Cada uma com seus pontos fortes e defeitos. Depois eu namorei um cara e cometi o velho erro de me afastar daquela turma. Quando o namoro acabou já tínhamos cada uma ido para um lado diferente do mundo.

Em poa reencontrei velhos amigos e armamos nossa ilha por lá. Conheci outras amigas, mas nunca mais tive aquele grupo de gurias que andam juntas, quase como irmãs.

Porisso quando eu vejo isso, me bate uma inveja (boa) danada e vontade de estar aí. Pois é gurias, isso que vocês têm vale ouro.

Muitas de mim

Monday, March 26th, 2007

Tenho ouvido antigas músicas e despertando antigos hábitos. Coisas de uma época que passou e deixou ensinamentos.

Ontem costurei uma faixa para usar por baixo das batas, que teimam em exibir meu sutiã. Usei as pernas de uma calça velha, há muito que virou bermuda e há muito que foi doada. As pernas eu sempre guardo, coisas que a mãe da gente põe na nossa cabeça de forma quase imperceptível.

Me lembrei da época que eu ‘customizava’ minhas roupas, antes disso virar forma e esses termo ser inventado. Eu não era punk, mas eu nunca curti as roupas tais como eram entregues nas lojas – ombreiras, golas altas, resquícios da década perdida. A tesoura corria solta…eu queria mesmo mostrar a alça do sutiã, da regata. Quando aprendi serigrafia na faculdade perdia parte do meu tempo criando estampas e imprimindo em camisetas e moletons.

Bons tempos… mas eu também tinha raiva, impaciência e não entendia a marcha lenta dos que andavam comigo. Durante um tempo eu não entendia e não aceitava, meu humor mordaz afastou algumas pessoas, que nunca fizeram falta. Se por um lado descobri meus melhores amigos sendo desse jeito, notei que além dos grandes filhas-da-puta, eu estava afastando pessoas sem dar o tempo de conhecê-las.

Etapa 2, já depois de formada, alguns anos de trabalho, aprendo que não é crime imperdoável as pessoas não seguirem meu ritmo. Diminuo o ritmo e vario os projetos 0-de que adianta acabar as coisas em dois dias se o resto da equipe ainda rumina o que deve ser feito?

Outra coisa, de que adianta idéias brilhantes se depois que vc sair elas vão ser jogadas aos porcos? Deve ser construído um alicerce sólido, cuja uma das bases é poder deixar herdeiros, criar discípulos…

Anos a mais redescubro que algumas pessoas merecem mesmo um pé no traseiro e que tem vagabundo que só funciona na base da ameaça e do grito. E que eu não preciso levar ao pé da letra a história de respeitar o ritmo dos outros. Eu sou o cara do tambor que marca o compasso da galera.

E nesse acelera/acompanha eu busco um equilíbrio…Etapa 3.

Musiquinha que não sai da cabeça…

Wednesday, February 28th, 2007

Minha mãe sempre me falava que Gita do Raul Seixas era a música que ela mais ouvia enquanto me esperava. De certa forma, Gita é a minha primeira música.

Talvez eu fale para a Sofia que a música que não em saía seja Somewhere Over the Rainbow/What a Wonderful World, medley do cantor havaiano Israel Kamakawiwo’ole.

Não sei onde ouvi a primeira vez, acho que no filme “Como Se Fosse a Primeira Vez” que o Ina indicou no post que ele fez sobre o artista e de onde eu tiro algumas informações que escrevo aqui.

Eu costumo torcer o nariz quando ouço a palavra medley, tvz por tanta porcaria que se faça sob o guarda-chuva dessa definição. As duas músicas separadas para mim são belas, mas descaracterizadas por um abuso intensivo para fins melosos como cachorrinhos e crianças fofinhas com frases “edificantes” em powerpoints cheios de efeitos.

Então, é quase uma brincadeira ouvir a voz mansa de um havaiano, acompanhado de um violão cantando essa música. Devolvendo as duas músicas a dignidade que elas merecem.

Não sei se há um clip bonitinho dessa música. Infelizmente o cantor morreu em 1997 e o clipe acima é um tributo a ele, com direito a imagens das cerimônias funebres (que, diga-se de passagem, são muito bonitas). Mas acho que a Sofia não vai se ofender com isso, afinal, esses ciclos de nascimento e morte fazem parte da vida.

Só lembrando…

Thursday, January 18th, 2007

Sábado, dia 20, é meu aniversário.

Dessa vez vou passar o dia do jeito que eu sempre quis – refletindo e curtindo as pequenas coisas da vida. Talvez eu abra a exceção a um bom almoço com a familia.

Eu sei, é bem anti-social. Mas durante anos fui forçada a organizar e fazer festas e encontros, tendo sempre que bolar ‘uma coisinha’ para não passar ‘em branco’. Época de aniversário para mim era um crescente de agonia e pressão familiar. Minha mãe chegava a encomendar salgadinhos e doces sem minha autorização – “caso venha alguém” – sem eu ter convidado ninguém. Depois me cobrava porque só algumas pessoas tinham vindo. Me lembro de ter que ligar, na corrida, para alguns amigos passarem lá em casa só para acalmar a sanha social da familia. Era um inferno! A vontade que eu tinha era de viajar uma semana antes e só reaparecer uma semana depois.

Gosto de ver, sair com meus amigos, chegados, familia, mas não no dia do meu aniversário. Há um ‘peso’ em ser o centro das atenções, os lugares comuns e toda a cena que, eu sei que tem gente que adora e conta os dias para isso, mas eu passo.

E esse ano eu vou fazer 32. Eu esperei muito tempo para fazer 32. É um aniversário que eu sempre quis passar. Sempre gostei do número 32 e considerei durante anos, o meu número de sorte.

Então decidi que vou passar do jeito que realmente gosto de passar um aniversário. Sozinha, com o Tiago, fazendo o que me der na telha.

Feliz aniversario pra mim!

Mas se depois de tudo isso você ainda quiser dar um presente para o bicho-do-mato aqui, tem duas listinhas uma da Amazon e outra da Submarino de coisas que eu gostaria de ganhar.

Apesar de…

Thursday, December 14th, 2006

Ter decidido não fazer resoluções de Ano Novo, tenho repensado algumas atitudes cotidianas, avaliado a real importância de algumas coisas.

Sempre tive a atitude de que “se está dando trabalho sem nenhum retorno ou compensação vai pro lixo”. Isso vale tanto para a coleção de pokemons que eu tinha quanto para contatos, amizades, relacionamentos ou planos.

Isso me levou a sair de grandes furadas mas desconfio que também posso ter perdido algo interessante pelo caminho.

Esse ano pôs esse conceito/atitude a uma provação que eu nunca tinha passado antes. Várias vezes eu tive que serrar os dentes para aguentar o tranco. Fiz concessões que eu não imaginava fazer e agi as vezes, de forma que até eu me assustei comigo.

Essas horas, vinha as palavras do meu sábio pai sobre respeito e o meu sentimento/experiência pessoal que sempre sentar e conversar é o melhor. Francamente, por mais que doa. Não ter vergonha de pedir desculpas, voltar atrás. Sem jogos.

Acho que amadureci um bocado esse ano. E ele também. Talvez por isso o bebê tenha vindo agora, tem certas coisa que acontecem pra gente, apenas quando se está pronto. Eu, pelo menos, tenho essa sorte.

Agora está na hora de juntar as outras coisas velhas, de menor importância, e dar o seu devido fim.

Influências I

Wednesday, December 13th, 2006

Louise Brooks

[+] Especial No Mínimo

A cabeça muda

Thursday, November 16th, 2006

Desde que fiquei grávida eu tenho pensado a sério a minha carreira. Não que eu não tenha pensado à sério antes, mas como um alien que toma conta da gente, a idéia de estar grávida tem mudado minha forma de lidar com algumas coisas.

Começa pelo fato de eu não estar conseguindo me concentrar como antes. Estou escrevendo e lá pelas tantas me bate algo eu abro o navegador e começo a procurar sobre o assunto: Pode ser a semana de gravidez, pode ser algum conselho para o pai, pode ser sobre o parto (o assunto da semana), ver preços de berços, brinquedos, etc…

Eu acho estranho ficar pensando nessas coisas porque, apesar de eu saber que estou grávida, enjoar, não caber mais em algumas roupas (isso é chaaaatooooo muito chaaaaaatooooo) e estar com o humor oscilante e sentir de vez em quando algo duro lá dentro (meu utero), o bichinho não se manifesta, faz semanas que eu não o vejo e só sei que ele está um pouco maior que uma noz porque eu li isso.

Mas voltando o assunto trabalho. De uma hora para outra tudo que parecia ser importante passou a ser secundário. Sem minha consulta. Semana passada participei de uma mesa redonda e na terça dei uma palestra. Se fosse há algum tempo atrás eu estaria super feliz, vibrando, super nervosa e com o egodzilla lá em cima pelos convites. Hoje não. Eu estava mais ou menos calma com a situação, feliz achando tri legal, gostando do reconhecimento, mas dentro da normalidade.

Acho que isso se refletiu nos dois encontros onde eu tentei ser o mais simples e sincera possível nas minhas explanações. E a parte que eu mais curti foi falar com o pessoal, adorei a parte da perguntas. Gostaria que tivessem perguntado mais.

Esses dois encontros me fizeram sentir saudades de lecionar. Mas daí…

Daí voltamos a minha mudança de prioridades, enquanto a Fernanda workaholic quer resolver os problemas do mundo a Fernanda mãe quer é esvaziar a cabeça, chegar em casa, arrumar as gavetas, deitar no sofá da sala, bater um papo com o bebê – ou ainda – conversar com o Tiago sobre o se vamos nos mudar, será que ele é normal, ver um filme, o que tem pra janta, pega no meu pé?

Quer dizer, se antes eu tinha uma pálida idéia do que ia ocorrer nos próximos dois anos, tinha alguns planos As, Bs e Cs agora tudo está em branco a partir de maio.

Talvez seja uma chance de mudar de rumo, tentar coisas novas. Claro que a maioria das pessoas pensa que com filhos vem mais responsabilidades (certo) e que pro isso tem que buscar estabilidade (errado). Se um filho dá forças para enfrentar qualquer coisa, porque não enfrentar algo diferente? A vida já está de pernas pro ar mesmo.

Deu pra entender?

Faroeste Caboclo

Sunday, November 5th, 2006

Legião Urbana
Composição: Legião Urbana

Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu
Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com tiro de soldado o pai morreu
Era o terror da sertania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu
Ia pra igreja só prá roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria escolheu a solidão
Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico aos doze era professor
Aos quinze foi mandado pro reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror
Não entendia como a vida funcionava
Descriminação por causa da sua classe e sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem foi direto a Salvador
E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem
Ia perder a viagem mas João foi lhe salvar:
Dizia ele – Estou indo pra Brasília
Nesse país lugar melhor não há
Tô precisando visitar a minha filha
Eu fico aqui e você vai no meu lugar
E João aceitou sua proposta
E num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária viu as luzes de natal
- Meu Deus mas que cidade linda!
No Ano Novo eu começo a trabalhar
Cortar madeira aprendiz de carpinteiro
Ganhava mais de cem mil por mês em Taguatinga
Na sexta feira ia pra zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo do seu bisavô
Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ele ia começar
E Santo Cristo até a noite trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa
E decidiu que como Pablo ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E sem ser crucificado a plantação foi começar
Logo, logo os maluco da cidade
Souberam da novidade
- Tem bagulho bom ai!
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali
Fez amigos, freqüentava a Asa Norte
Ia prá festa de Rock prá se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinho da cidade
Começou a roubar
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro no seu corpo
- Vocês vão ver, eu vou pegar vocês!
Agora Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante de Playboy ou general
Foi quando conheceu uma menina
E de todos os seus pecados ele se arrependeu
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele prá ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
- Maria Lúcia eu pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter
O tempo passa
E um dia vem na porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indegorosa
E diz que espera uma resposta, uma resposta do João
- Não boto bomba em banca de jornal
E nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas
Que fica atrás da mesa com o cú na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um peixe de ascendente escorpião
Mas antes de sair, com ódio no olhar
O velho disse:
- Você perdeu a sua vida, meu irmão!
- Você perdeu a sua vida, meu irmão!
- Você perdeu a sua vida, meu irmão!
Essas palavras vão entrar no coração!
- Eu vou sofrer as conseqüências como um cão.
Não é que o Santo Cristo estava certo
Seu futuro era incerto
E ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira
Descobriu que tinha outro trabalhando em seu lugar
Falou com Pablo que queria um parceiro

Também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia
E Santo Cristo revendia em Planaltina
Mas acontece que um tal de Jeremias
Traficante de renome apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que com João ele ia acabar.
Mas Pablo trouxe uma Winchester 22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que Jeremias começasse a brigar
Jeremias maconheiro sem vergonha
Organizou a Roconha e fez todo mundo dançar
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar
E Santo Cristo há muito não ia pra casa
E a saudade começou a apertar
- Eu vou me embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já tá em tempo de a gente se casar
Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia Jeremias se casou
E um filho nela ele fez
Santo Cristo era só ódio pro dentro
E então o Jeremias prum duelo ele chamou
- Amanhã, as duas horas na Ceilândia
Em frente ao lote 14 que é pra lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas
Que eu acabo com você, seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia
Aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor
E Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o repórter da televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora o local e a razão
No sábado, então as duas horas
Todo o povo sem demora
Foi lá só pra assistir
Um homem que atirava pelas costas
E acertou o Santo Cristo
Começou a sorrir
Sentindo o sangue na garganta
João olhou pras bandeirinhas
E o povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro
E pras câmeras e agentes da TV que filmava tudo ali
E se lembrou de quando era uma criança
E de tudo o que viveu até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se via-cruis virou circo, estou aqui.
E nisso o sol cegou seus olhos
E então Maria Lúcia ele reconheceu
Ela trazia a Winchester 22
A arma que seu primo Pablo lhe deu
- Jeremias, eu sou homem. Coisa que você não é
E não atiro pelas costas, não.
Olha pra cá filha da puta sem vergonha
Dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o teu perdão
E Santo Cristo com a Winchester 22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor
O povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na história
Que eles viram da TV
E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília com o diabo ter
Ele queria era falar com o presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz
Sofrer…

*****
Enquanto eu andava de ônibus pela cidade eu entendia de onde vinha as músicas do Legião. As luzes de natal vistas da rodoviária são belas, em contraste a um local tão sujo. A divisão da cidade, a violência e o abandono das cidades satélites, o isolamento do pessoal que vive nas asas.

Pois é. Dia 3 fez um ano que me mudei para Brasilia. Foram 40 dias morando com a minha imã, morrendo de saudades do Tiago, depois quase um janeiro inteiro morando numa casa sem móveis, sem fogão ou geladeira com um cara muito muito deprimido. Na verdade a depressão dele durou quase seis meses e eu quase fraquejei e pensei em voltar para POA, para ver se ele voltava a sorrir.

No trabalho, talvez a melhor equipe com quem eu já tenha trabalhado, apesar de eu sentir, muito, falta de por mais a mão na massa.

Foi um ano e tanto. Agora enquanto escrevo toca outra música “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” do U2. Talvez nunca tenha sido mais verdadeiro.

Hora de pensar na vida

Tuesday, October 31st, 2006

Minha mãe não voltou a trabalhar até a minha irmã fazer 3 anos. Me lembro dela perguntar sempre se a gente queria que ela trabalhasse de manhã ou de tarde (ela era professora). Não me lembro o que eu respondia, como também não me lembro se isso realmente importava para mim. Boa parte das manhãs eram passadas com a empregada. Mas depois da Dóia, eu devia ter uns três anos, não tive vínculos afetivos com nenhuma delas.

Com o tempo as empregadas se tornaram diaristas. Passaram a não mais morar com a gente e o quarto de empregada virou a sala de jantar. Meus pais sempre dividiram algumas tarefas da casa com as filhas, até na praia, onde eu aprendia a lavar a louça e quarar a roupa branca.

Em casa eu sempre arrumei a cama, arrumava a mesa antes e depois da janta. A Arrumação do quarto sempre foi de nossa responsabilidade e se a bagunça ficava muito grande vinha as ameaças de que “o que tiver no chão vai para as criancinhas do orfanato”.

Minha irmã aprendeu a cozinhar. Eu nunca curti cozinha e achava ‘coisa de mulherzinha’ – sim eu nunca fui uma mulherzinha. Eu tinha ojeriza de brincar de casinha e a qualquer coisa rosa. Eu gostava de pintar, desenhar, organizar e consertar coisas. Não queria casar e meu sonho era correr o mundo numa carroça junto com a Quite – minha cadela com nome de gato.

E essa história foi até os oito, nove anos. Depois eu resolvi que ia trabalhar com o George Lucas e o Steven Spilberg produzindo filmes. Ou ser fotógrafa da National Geographic.

(Mais tarde eu desisti de trabalhar com o George Lucas e com o Steven Spilberg. Os dois tinham problemas pessoais demais que passavam para os filmes. Não tem paixão, e tudo muito diluído e corretinho e parece que quanto mais velhos eles ficam, mais ojeriza dessa coisa familia – pai, mãe, filhos que crescem, gente que se apaixona e se reproduz. Os filmes antigos eram melhores. E o Han Solo atirava primeiro. Sem desculpas).

O tempo passou, eu tive fase punk-light com camisetas customizadas (na época era rasgada e cortada mesmo), com calças tão velhas que um dia uma rasgou de alto a baixo enquanto subia no ônibus. Nem dei bola, amarrei o moleton, preto, por cima e fui para aula.

Depois eu descobri a Internet, curti trabalhar na área. Nunca me desviei muito do desenho. Também virei uma pessoa aparentemente normal até a hora que eu abro a boca para falar.

Mas ainda não me sinto bem num terninho com calça social.

Mas deve ser estranho para muitos que apesar de toda a minha porralouquice que me acompanhou desde a mais tenra infancia, eu sempre tenha pensado em ter filhos, carregá-los de mochila por aí e ter um cara ao meu lado.

Não um cara qualquer. O cara.

E eu sabia que era uma missão quase impossível. Cheguei até a pensar em produção independente, mas nesse ponto, acho legal ter um pai do lado. Adotar também seria legal. talvez mais tarde, depois dos 40, uma criança, ou duas.

Eu estava mais ou menos nesse ponto que o Tiago apareceu. Daí eu descobri que a missão não era tão impossível assim. Pelo menos, essa etapa está completa :)

Na verdade, na verdade eu ia escrever sobre outra coisa, mas eu estou assim mesmo.

Ok…quase um mês depois eu escrevo…porque?

Thursday, February 21st, 2002

Ok…quase um mês depois eu escrevo…porque?
Ah… participei do Forum Social Mundial, como fotógrafa do Portoweb
O endereço é portoweb.com.br/fsm2002

É só entrar lá e conferir…é que a barra para links deu de não aparecer hj.

Depois recomecei a dar aulas…legal, adoro dar aulas, mas a primeira semana é hard – todos aqueles alunos te olhando, esperando algo: Vontade de gritar: ‘Vira pra lá! Não precisa ficar me olhando!’

Juro! Flávio…amanhã coloco seu haikai – achava que já tinha colocado.