Alice já tem quase três meses e eu ainda não falei nada sobre o parto. Até agora.
Como no caso da Sofia, eu queria parto normal.
Não compreendo esse afã que as brasileiras tem pela cesárea. Dizem não querer passar dor, mas permitem que seja amarradas, que lhe cortem a barriga em sete camadas, que lhe dopem. Aceitam o fato que talvez seu filho vá nascer antes da hora, que tenha problemas respiratórios, que não consiga mamar no peito. Aceitam uma cicatriz permanente e visível, dores que podem durar meses e que ficaram fora de forma durante muito, muito tempo.
Tinham me consultado de manhã cedo, acho que as nove já estava em casa. A médica queria já internar, estava com dois de dilatação, mas não haviam quartos. Voltei para casa com a recomendação de ficar quieta, deitada na cama. Teríamos um quarto a noite, quase madrugada.
Cheguei em casa deitei e peguei um livro. Sofia queria brincar, pedi que alguém a pegasse. Comecei a ler. Umas trinta páginas depois senti uma pontada. Tiago arrumava as últimas coisas em casa. Comecei a contar. Quando chamaria os outros? As contrações eram leves, mas evoluíam rápido. Tiago passou no quarto: – Vou limpar o quarto das gatas. Senti que não ia dar tempo. – Não vai, não. Nós vamos é para o hospital!
Arrumamos a mala na corrida. Qualquer coisa o hospital ficava perto. Pouco antes de sair olhei para o relógio: meio dia e três.
As contrações foram ficando mais fortes e doloridas. No carro mal dava para aguentar. Quabdo cheguei no hspital tivemos ainda que passar no consultório. A Myrian mediu a dilatação: oito. Quase pulei de alegria mas as contrações não deixavam. Tive que subir para a ala de partos de maca. É o procedimento. Mas…putz! Podiam abrir uma exceção para mulheres em trabalho de parto. Ficar sentada é uma tortura! A enfermeirinha que me levava ainda não deu conta de subir uma rampa empurrando a cadeira e tive que ajudar. Eu devia ter mandado as favas o procedimento padrão e levantado.
Não tive que perambular muito nos corredores, logo estava na sala de parto fazendo força. Tiago do meu lado. Eu fazia , fazia força e a médica só dizia: – Está errado! Força de fazer cocô! Força de fazer cocô! E eu lá procurando o ponto certo no meio da dor. E a cada contração a médica: – Está errado! Força de fazer cocô! Força de fazer cocô!
Lá pelas tantas, exausta, achei o ponto. O Tiago incentivava. Quando achei o ponto certo foram apenas duas empurradas. Cada “empurrada” era exaustiva mas, pelo menos, não doía.
Alice nasceu as 13h e 24 min.
Como no parto da Sofia, o Tiago me deixou e foi atrás do pediatra que levou a Alice. Eu fiquei alí com a equipe fazendo o “rescaldo”. Precisei apenas de um ponto e quando perguntei da placenta descobri que já a tinha expulsado.
Fui levada a sala de pós-parto onde quatro pais recentes estavam sentado ao lado de suas esposas inconscientes. Todas cesáreas. Sentei na maca e pedi mais um cobertor. Sentia o sangue sujando os lençóis e comecei a tremer por conta da adrenalina. E nada do Tiago e da Alice. Eu queria falar com alguém mas ninguém me olhava. Que diferença do parto da Sofia onde as enfermeiras tinham sido tão atenciosas.
Eu era tratada, entre eles, como a “parto normal”.
Eu tremia e batia os queijos por conta da adrenalina. Queria minha filha, queria o Tiago. As mulheres a minha volta começavam a despertar. Eu me sentia desamparada alí sozinha. Ninguém me dizia porque o Tiago demorava tanto com a Alice. Teria acontecido algo errado? Queria perguntar a alguém mas as enfermeiras estavam estrategicamente longe.