Sofia e o telescópio da mamãe

Artigo publicado no Medium

desenho de sofia - por ela - na parte externa da casa olhando no telescópio

Um dia minha filha mais velha veio até mim e me perguntou.

Mãe, eu tenho que ser menino?

Me espantei pela pergunta, mas tive o censo de perguntar antes de responder:

Por que Sofia? Por que você teria que ser menino?

Ela me responde exasperada.
Porque eu gosto de brincar de carrinhos.

Sorri para ela.

Não minha filha, você não precisa ser menino porque gosta de brincar de carrinho ou por qualquer outra coisa. Você só será menino se quiser.

Ela sorriu e foi brincar. Teria problemas se ela quisesse ser menino? Comigo não, nem com o pai. Seria duro para ela, pois vivemos num mundo injusto. A última coisa que eu gostaria de ser seria mais um barreira para minha filha ser feliz.

Mas fiquei com raiva. Raiva da escola que reforça esses estereótipos de gênero. Da industria brinquedos que divide suas lojas em brinquedos de meninos e meninas. Dos pais que ensinam seus filhos a serem “pegadores” e suas filhas “princesas”. Dos familiares que insistem que minha filha de nove anos já é “uma mocinha” e que seus filhos não podem ter educação à mesa para não “abicharem”.

Não lembro de lá, quando começamos andar eretos nos tempos das cavernas, alguém dizer que apenas meninos podem brincar de carrinhos.

Nossos papeis na sociedade são fluídos de acordo com as culturas que nossa civilização desenvolve. Assim como não andamos mais jogando penicos cheios na cabeça de transeuntes, como se fazia na idade média, podemos também ter mais respeito com a individualidade de cada um. Incluindo nossos filhos.

Afinal, mulheres não dirigem? Ou que apenas meninas podem brincar de bonecas? Mães também não trabalham? Os filhos não merecem o carinho dos pais?

Penso que há pouco amor nessas decisões. Pouco respeito a individualidade da criança e ao crescimento de todo seu potencial. Afinal, poderá ser uma mulher a desenvolver um carro barato que não polua? Ou um homem ensinar compaixão? (ah! Isso já foi feito)

Até quando aceitaremos a ignorância desta distinção de gêneros artificial e injusta? Essa distinção que só serve para nos controlar e enriquecer uma industria pouco preocupada com nosso bem-estar? Até quando aceitaremos que crianças e jovens morram por conta da tradição e intolerância? Até quando repetiremos como papagaios, esses estereótipos que tanto machucam e prejudicam o pleno desenvolvimento de nossos filhos e filhas?

Sei que minhas filhas, por serem criadas de forma independente do lugar comum de nossa sociedade irão passar por muitas dificuldades. E nós as temos ensinado a entender o mundo como ele é e fazer sua parte para que seja um lugar mais justo para todos. Nem sempre é fácil, mas acredito que só assim sairemos dessa pequena idade média onde nos metemos.

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